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José Lutzenberger e a defesa da Amazônia

José Lutzenberger e a defesa da Amazônia

18 de fevereiro de 2021 | Tempo de leitura: 7 minutos

Por Elenita Malta Pereira

Uma das lutas mais importantes do ambientalista José Lutzenberger foi a defesa da floresta Amazônica. Lutzenberger (1926-2002), um porto-alegrense descendente de imigrantes alemães, foi engenheiro agrônomo e primeiro presidente da Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN), fundada em abril de 1971.

          Nos anos 1970, o engajamento de Lutzenberger a favor da Amazônia se deu através da escrita de artigos, proferimento de palestras e de entrevistas. Já no final dos anos 1970 e principalmente nos anos 1980, Lutzenberger fez várias viagens à região para conhecer mais de perto a realidade da Amazônia.

Lutzenberger em lago próximo ao rio Solimões, Manaus, 17/07/1978 (Reprodução do Acervo Privado de José Lutzenberger).

          Em 1981, ele participou da série documental “A década da destruição” do cineasta Adrian Cowell, sendo narrador do episódio “Nas Cinzas da Floresta”.

Capa de folheto de divulgação da série A década da destruição em inglês (Reprodução de documento do Acervo Privado de José Lutzenberger). Frame do episódio “Nas cinzas da Floresta”, em que Lutzenberger mostra propriedade devastada em Rondônia. 

          No filme, Lutzenberger critica a migração de colonos do Sul, Sudeste e Nordeste do país para a Amazônia, que era incentivada pelos governos militares para resolver o problema dessas regiões, onde a agricultura industrial estava tomando conta das terras. Nesse contexto, a atenção internacional estava voltada justamente para a importância das florestas tropicais. Principalmente a partir dos anos 1980, o debate sobre as mudanças climáticas e preservação da biodiversidade ganharam força não só entre especialistas no assunto, mas tornaram-se preocupação da sociedade em geral, um tema que passou a ser do interesse de todo o planeta. Por isso, a defesa da Amazônia, nos anos 1980, faz com que Lutzenberger se torne cada vez mais conhecido no Brasil e no exterior.

          Em eventos internacionais, Lutzenberger apontou as causas da destruição da floresta. Em sua visão, a devastação era promovida pela pecuária na Amazônia, por megaprojetos como o Projeto Carajás, o POLONOROESTE,  e também pela presença das multinacionais, que iam para a Amazônia multiplicar seus capitais. As consequências disso, para Lutzenberger, era o genocídio dos povos indígenas, seringueiros e outros habitantes da floresta, esses sim, com um estilo de vida compatível à preservação do seu ambiente.

Lutzenberger proferindo a palestra “A Floresta Brasileira: Um Problema ou um Modelo para o Mundo?”, em 1983, no 3º World Wilderness Congress, organizado pela Findhorn Foundation, na Escócia (Reprodução do Acervo Privado de José Lutzenberger).

          Desse modo, a proteção da floresta vinha acompanhada de reflexões sobre seu papel no equilíbrio climático global, na sustentabilidade social e na preservação da biodiversidade. Porém, como em todas as suas frentes de militância, o problema central para o ambientalista era um dilema filosófico, causado pela ética antropocêntrica e exclusivista da moderna sociedade industrial – era assim que ele chamava a sociedade de consumo capitalista.

          Sua defesa da floresta tropical, aliada à crítica aos agrotóxicos, resultou para Lutzenberger o recebimento do prêmio Right Livelihood, conhecido como Nobel Alternativo. Na cerimônia, que aconteceu em 1988, na Suécia, Lutzenberger discursou ressaltando a importância de preservar a biodiversidade e alertando para os perigos das mudanças climáticas causadas pela destruição da floresta. 

          Nos anos 1980, Lutzenberger entra em contato com a Teoria de Gaia,  formulada por James Lovelock e Lynn Margulis, tornando-se um de seus principais divulgadores. Participou da criação de ONGs inspiradas no conceito, como a Gaia Foundation e a Foundation for Gaia, na Inglaterra, e criou uma Fundação Gaia no Brasil (em Pantano Grande-RS). A partir da Teoria de Gaia e da sua militância prática e intelectual, formulou a ética do desenvolvimento ecossustentável, um caminho para, segundo ele, garantir a continuidade da Amazônia e da vida como um todo.

Lutzenberger no Rincão Gaia, sede da Fundação Gaia, em Pantano Grande (Reprodução do Acervo Privado de José Lutzenberger).

          Já nos anos 1990, a questão amazônica adquiriu outro caráter para Lutzenberger. Ao tornar-se Secretário do Meio Ambiente no Governo Collor, desde o início afirmou que a defesa da floresta seria sua prioridade. No período em que ocupou o cargo, recebeu críticas, mas também contribuiu para conquistas importantes na área ambiental, como o fim das experiências nucleares brasileiras na Serra do Cachimbo e a demarcação da Terra Indígena Yanomami

          A luta pela preservação da Amazônia travada por Lutzenberger não se resumiu à preservação da fauna e da flora, mas também levou em conta a proteção dos povos afetados por essa devastação: indígenas, seringueiros e ribeirinhos. A preocupação com a floresta ganhou os holofotes internacionais principalmente nas décadas de 1980 e 1990, muito pela atuação de pessoas como José Lutzenberger, que ao acionarem suas redes de contatos permitiram uma conscientização maior sobre a Amazônia, mas também sobre a urgência de a humanidade adotar uma ética de convívio que preserve Gaia e a si mesma.

 

Ciência se faz com parceria

       Essa pesquisa decorre da tese de doutorado da autora e faz parte do projeto “José Lutzenberger: Um mediador entre o ambientalismo brasileiro e global (Déc. 1980-1990)”, desenvolvido entre 2017-2020,  com a parceira fundamental da Bolsista de IC Sara Rocha Fritz (Graduanda, UFSC) e do Bolsista Técnico Denis Henrique Fiuza (Doutorando, UFSC). Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do governo federal através do  CNPq (Edital Universal 01/2016)..

Quer saber mais? 

Site do projeto Lutz Global (acesse aqui).

Canal no YouTube Lutz Global (acesse aqui).

Pereira, E. M. A ética da convivência ecossustentável: uma biografia de José Lutzenberger. Tese de Doutorado em História. Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Porto Alegre, 2016. (acesse aqui).

______. “A década da destruição da Amazônia”: José Lutzenberger e a contrarreforma agrária em Rondônia (Anos 1980). História Unisinos. 21(1):26-37, Janeiro/Abril 2017. (acesse aqui).

PEREIRA, Elenita Malta; FIUZA, Denis Henrique; FRITZ, Sara Rocha. José Lutzenberger e a luta pela Amazônia: militância ambientalista internacional em defesa da floresta (1970-1990). Dossiê História Ambiental, Oficina do Historiador (PUCRS), 2º semestre 2020. (acesse aqui).


Elenita Malta Pereira é Licenciada, Bacharel, Mestre e Doutora em História pela UFRGS. Editora do blog A Voz da Primavera. Veja mais na Plataforma Lattes, ResearchGate e Google Scholar

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