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Mudanças Climáticas, Amazônia e impactos para a sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar

Mudanças Climáticas, Amazônia e impactos para a sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar

1 de outubro de 2021 | Tempo de leitura: 15 minutos

Por Arielli Machado, Filipe Lindau, Kauane Bordin, Júlia Menin e Sly Wongchuig

No dia 16 de setembro de 2021, nós, da rede Conexões Amazônicas, abrimos o evento Amazônia Interdisciplinar | Ciclo de Palestras Online 2021 com o painel ‘Mudanças Climáticas, Amazônia e impactos para a sociedade’ (assista aqui). O evento Amazônia Interdisciplinar é um espaço de divulgação, diálogo e reflexão entre pesquisadores(as) da rede Conexões Amazônicas, pesquisadores(as) convidados(as), comunidade acadêmica e sociedade em geral acerca da temática amazônica. Nesse evento buscamos integrar e discutir aspectos biológicos, físicos e sociais sobre uma temática importante para a sociedade sobre a Amazônia. Nos meses de outubro e novembro apresentaremos os próximos painéis sobre ‘Barragens e impactos socioambientais’, dia 14 de outubro, e ‘Impactos antrópicos contados pelos peixes’, no dia 18 de novembro (mais informações | Inscrições).

Para o painel de Mudanças Climáticas, contamos com a presença de quatro pesquisadore(a)s que palestraram sobre o tema nas suas áreas de pesquisa, Filipe Gaudie Ley Lindau, Kauane Maiara Bordin, Sly Wongchuig Correa e Júlia Menin, com o apoio da pesquisadora Arielli Machado na coordenação e mediação, e um público de diversas regiões do Brasil que participou e contribuiu com excelentes perguntas no debate final. Foram 178 participantes inscritos para assistir ao painel e 290 visualizações do painel no Canal do Conexões Amazônicas no Youtube até hoje. Ajude-nos a levar esse conteúdo a mais pessoas compartilhando o vídeo e se ainda não assistiu, não deixe de conferir esse momento de diálogo entre ciência e sociedade sobre essa temática atual urgente.

Nessa tarde, Filipe Lindau, Doutor em Geociências e Pesquisador do Centro Polar e Climático da UFRGS, falou sobre o relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) das Nações Unidas que resume milhares de artigos científicos abordando o clima em todas as regiões do planeta (confira um mapa interativo aqui). E explicou a dinâmica do clima como resultado da interação entre o calor do sol e todos os sistemas que compõem as camadas superficiais do nosso planeta (atmosfera, oceanos, solos, vegetação, etc.). Assim, cada sistema tem um papel fundamental no clima e quando atividades humanas prejudicam o funcionamento de um ou mais desses sistemas, podem haver sérios problemas socioambientais. Filipe mostrou que as atividades humanas que poluem o ar são relacionadas com enchentes, secas, ondas de calor e de frio cada vez mais intensas e frequentes, trazendo estudos que mostram aumento da seca e temperatura em áreas desmatadas na Amazônia. Ele alerta que estamos em um estado de emergência climática, que no Brasil é agravada pelo desmatamento da floresta Amazônica. A soma dessas mudanças nas chuvas e na temperatura com o desmatamento, a fragmentação da floresta e políticas florestais ineficazes resultam em queimadas cada vez mais intensas e sua fumaça polui o ar prejudicando a saúde de muitos animais (como nós, humanos), pois carrega pequenas partículas que se depositam nos pulmões causando doenças respiratórias graves. Concluindo que para lidar com a emergência climática na Amazônia, são fundamentais ações para frear o desmatamento e preparar as comunidades locais para eventos climáticos cada vez mais extremos. Filipe adquiriu esses conhecimentos através dos seus estudos sobre mudanças climáticas em registros nos gelos dos Andes (veja aqui a matéria no Blog do Conexões Amazônicas sobre o estudo de Filipe).

Registro de alguns momentos da palestra do Pesquisador em Geociências, Filipe Lindau, no Painel de Mudanças Climáticas, Amazônia e sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar (assista aqui).

Kauane Bordin, Bióloga pela Unochapecó, Mestre e Doutoranda em Ecologia na UFRGS, foi a segunda palestrante. Ela falou sobre os impactos das mudanças climáticas nas árvores da Amazônia, mostrando que as florestas tropicais desempenham um papel fundamental na ciclagem global de carbono e são responsáveis pela maior capacidade de sumidouro de carbono no planeta. Assim, a Floresta Amazônica contribui com uma parte importante dessa dinâmica, especialmente devido à presença de árvores de grande porte. A Ecóloga Kauane destacou que a ocorrência de muitas espécies amazônicas está associada a fatores climáticos, como a disponibilidade de chuvas ao longo do tempo, mas que mudanças no clima têm levado a alterações principalmente no regime de chuvas e temperatura nessa região, e como consequência disso tem se observado um aumento na mortalidade de árvores na Amazônia. Além de impactar a estocagem e a capacidade de sumidouro de carbono da Floresta Amazônica, essas mudanças também estão relacionadas com a mudança na composição de espécies da região, de modo que espécies mais afiliadas a condições úmidas estão sendo substituídas por espécies afiliadas a condições secas. Ela explicou que a redução na precipitação e o aumento na temperatura tornam a região mais seca, impactando negativamente a floresta e, consequentemente, o ciclo global do carbono. Assim, Kauane nos mostrou naquela tarde a dinâmica biológica de interação entre as florestas e o clima no estoque de carbono (elemento que causa aumento das temperaturas), tema foco dos seus estudos (leia e assista matérias da UFRGS sobre os estudos dela).

Registro de alguns momentos da palestra da Pesquisadora em Ecologia, Kauane Bordin, no Painel de Mudanças Climáticas, Amazônia e sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar (assista aqui).

Sly Wongchuig, Engenheiro Agrícola pela Universidad Nacional Agraria La Molina no Peru, Mestre em Recursos Hídricos pela Universidade Federal de Lavras, Doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental pela UFRGS e Pesquisador da Université de Grenoble da França, falou sobre os impactos das mudanças climáticas nos recursos hídricos da Amazônia. Sly destacou que, durante as últimas décadas, a bacia Amazônica tem mostrado um aumento na frequência de eventos hidrológicos extremos (veja aqui a postagem no Blog do Conexões Amazônicas sobre a pesquisa de Sly). Os impactos destes eventos tais como cheias e secas extremas nos últimos anos destacam o frágil equilíbrio que sustenta a floresta tropical mais importante do planeta num contexto de mudança climática. Por um lado, o clima de grande escala tem evidenciado a intensificação do regime hidrológico na Amazônia. Por outro, e desde um ponto de vista mais regional, a perda da floresta amazônica (mais amplamente observada na Amazônia brasileira) tem impactado o ciclo hidrológico regional, o que levará a uma diminuição significativa da precipitação na Amazônia da região andina também. Durante o painel foram discutidas estas questões, assim como os possíveis causantes e futuros impactos desses eventos, desde escalas globais até escalas mais locais ou regionais. Estes impactos abrangem diferentes aspectos como os ecológicos, sociais, econômicos, dentre outros.

Registro de alguns momentos da palestra do Pesquisador em Recursos Hídricos, Sly Wongchuig, no Painel de Mudanças Climáticas, Amazônia e sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar (assista aqui).

Júlia Menin, bacharel em Ciências Sociais, Mestre e Doutoranda em Sociologia na UFRGS, falou sobre os impactos das mudanças climáticas em comunidades ribeirinhas da Amazônia. Ao apresentar os dados de sua pesquisa de mestrado, destacou como as comunidades ribeirinhas já têm sentido os efeitos das mudanças do clima (leia aqui a matéria no Blog do Conexões Amazônicas sobre a pesquisa de Júlia). Dentre os aspectos debatidos estão o aumento do calor e a maior ocorrência de eventos climáticos de cheias e secas extremas. Segundo os entrevistados da pesquisa, já não é mais possível antecipar, “como faziam os avós”, se o ano será mais seco ou cheio. Além disso, para as populações entrevistadas, períodos de secas ou cheias extremas trazem impactos ao transporte, agricultura, pesca, calendário escolar, dentre outros. Júlia destacou, assim, como as mudanças climáticas atingem as populações de diferentes maneiras, se referindo a noções como justiça climática. Mostrou como as comunidades entrevistadas têm enfrentado períodos extremos, a partir de mobilizações comunitárias. Por fim, salientou a importância de pesquisas desenvolvidas desde a Sociologia na temática das mudanças do clima, assim como a importância da participação das comunidades locais no desenvolvimento de políticas públicas.

Registro de alguns momentos da palestra da Pesquisadora em Sociologia, Júlia Menin, no Painel de Mudanças Climáticas, Amazônia e sociedade no evento Amazônia Interdisciplinar (assista aqui).

Após as palestras, o público participou do debate contribuindo com múltiplas questões. Um dos participantes queria saber sobre evidências do impacto do desmatamento e queimadas sobre os rios voadores. Os rios voadores são os ventos que circulam desde as florestas da Amazônia até diversas regiões da América do Sul. Quando há queimadas na Amazônia, esses ventos levam fumaça a várias regiões, conforme observado e descrito em São Paulo em agosto de 2019 (veja mais aqui). Como as queimadas são geralmente decorrentes do desmatamento e os rios voadores são abastecidos pelas florestas, já se observam invernos mais secos tanto no sul da Amazônia como no sudeste do Brasil. Foi discutido sobre a possibilidade do aumento de espécies invasoras com o aumento do desmatamento e das queimadas, e sobre como a mudança no padrão de espécies de árvores adaptadas a secas se relaciona com a menor disponibilidade de umidade que as florestas poderiam propiciar. Também se discutiu sobre o deslocamento dos ventos do Atlântico Sul e sua relação com os padrões climáticos da Amazônia, onde Filipe destacou que mudanças climáticas causadas por atividades humanas que poluem a atmosfera estão causando um aquecimento acentuado da região tropical do Oceano Atlântico. Ele também salientou como o oceano e a atmosfera são sistemas muito conectados. Na região noroeste da Amazônia, essa mudança climática está se refletindo em cheias mais frequentes e mais intensas.

Outros pontos discutidos no debate foram sobre diferenças nas adaptações às mudanças climáticas das comunidades ribeirinhas indígenas e não indígenas, onde Júlia comenta que apesar de trabalhar apenas com comunidades ribeirinhas, é possível perceber diferenças práticas. Normalmente, há um modo de vida onde o rio provê meio de transporte e lazer e é uma extensão de suas casas. Porém, cada comunidade traz sua especificidade. Há uma diferença muito grande de informação sobre temáticas como as mudanças do clima em relação à comunidades localizadas dentro de Reservas de Desenvolvimento Sustentável e as que estão fora. Assim como há diferença de impactos de cheias e secas entre comunidades de várzea e comunidades em flutuantes.

Foi questionado no debate como as empresas podem se envolver em relação aos dados alarmantes para a Amazônia, tendo em vista o conceito de ESG (Environmental, Social and Corporate Governance) de sustentabilidade no mercado. Júlia destacou que a preocupação com o meio ambiente e as mudanças climáticas têm crescido dentro do ambiente empresarial, que é um movimento já “sem retorno”. Entretanto, nós, como sociedade civil, devemos ficar atentos às soluções propostas, para que estas provoquem verdadeiras e benéficas mudanças. Tem se discutido muito sobre o termo “greenwashing”, ou seja, de como muitas empresas ou organizações se apropriam e realizam marketing de pautas ambientais, sem de fato realizarem estas. Kauane destacou no diálogo que precisamos pressionar governos para que as medidas ambientais sejam de fato cumpridas.

Outra questão foi sobre os fenômenos das terras caídas, se estes têm sido mais frequentes com o aumento da frequência de cheias na Amazônia, sendo destacados pela Júlia relatos devastadores como o deslocamento de uma comunidade inteira no Lago Catalão devido ao desmoronamento. Ela salientou que o aumento desses fenômenos não causaram morte no local, mas perdas importantes na agricultura e pesca (veja mais aqui). Foi perguntado sobre os resultados do projeto Amazon Face, que podem ser conferidos na página do projeto (veja aqui). Por fim, foi discutido sobre a necessidade de estudos que integrem conservação e economia, e diálogo com o setor agrícola que acaba sendo propriamente afetado com perdas econômicas devido às mudanças climáticas. Assim, momentos como o daquela tarde nos levam a valorizar e motivar cada vez mais discussões abertas e interdisciplinares sobre temáticas urgentes como mudanças climáticas na Amazônia, com destaque para o Brasil devido à sua ampla área territorial, maior número de registros históricos de devastação ambiental e cenário político atual em relação ao meio ambiente.

Ciência se faz com parceria

O evento Amazônia Interdisciplinar é realizado por pesquisadores da equipe do Conexões Amazônicas como um projeto de extensão da Pró-reitoria de Extensão (PROREXT) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Contamos com o apoio do Professor André Netto Ferreira da equipe do Conexões Amazônicas para submissão do projeto de extensão na PROREXT, assim como também contamos com o apoio de diversos outros integrantes da equipe do Conexões Amazônicas em especial Bianca Darski, Ayan Fleischmann, Leonardo Laipelt, Maycom Nascimento e Eloísa Loose para a organização de detalhes técnicos e estruturais do Painel de Mudanças Climáticas. Além disso, também contamos com apoio para divulgação nos Programas de Pós-Graduação em Biologia Animal (PPG-BAN), Ecologia (PPG-Ecologia) e Desenvolvimento Rural (PGDR), e do Grupo de Pesquisa de Hidrologia de Grande Escala (HGE), do Grupo de Tecnologia, Meio Ambiente e Sociedade (TEMAS) e do Núcleo de Ecojornalistas do Rio Grande do Sul (veja aqui a matéria da eco jornalista Eloísa Loose do Ecodebate sobre o encontro).

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Gatti L V., Basso LS, Miller JB, Gloor M, Gatti Domingues L, Cassol HLG, Tejada G, Aragão LEOC, Nobre C, Peters W, et al. 2021. Amazonia as a carbon source linked to deforestation and climate change. Nature 595(7867): 388–393. (acesse aqui)

de Oliveira Alves N, Vessoni AT, Quinet A, Fortunato RS, Kajitani GS, Peixoto MS, De Souza Hacon S, Artaxo P, Saldiva P, Menck CFM, et al. 2017. Biomass burning in the Amazon region causes DNA damage and cell death in human lung cells. Sci Rep 7(1): 1–13. (acesse aqui)

Pan Y, Birdsey RA, Fang J, et al (2011) A large and persistent carbon sink in the world’s forests. Science (80- ) 333:988–994. (acesse aqui)

Poorter L, van der Sande MT, Arets EJMM, et al (2017) Biodiversity and climate determine the functioning of Neotropical forests. Glob Ecol Biogeogr 26:1423–1434. (acesse aqui

Esquivel-Muelbert A, Baker TR, Dexter KG, et al (2017) Seasonal drought limits tree species across the Neotropics. Ecography (Cop) 40:618–629. (acesse aqui)

Esquivel-Muelbert A, Brienen RJW, Fauset S, Phillips OL (2020) Tree mode of death and mortality risk factors across Amazon forests. Nat Commun. (acesse aqui)

Esquivel-Muelbert A, Baker TR, Dexter KG, et al (2019) Compositional response of Amazon forests to climate change. Glob Chang Biol 25:39–56. (acesse aqui)

Arielli Fabrício Machado é bióloga pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é bolsista Apoio Técnico Científico em projeto na Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Veja mais na Plataforma LattesResearchGate Google Scholar

Filipe Gaudie Ley Lindau é Engenheiro Químico, doutor em ciências na área de concentração de geoquímica (UFRGS). Atualmente é pesquisador e pós-doutorando do Centro Polar e Climático do Instituto de Geociências da UFGRS, onde dedica-se à coleta, análise e interpretação dos registros ambientais em testemunhos de gelo. Veja mais na Plataforma Lattes e no ResearchGate.

Kauane Bordin é graduada em Ciências Biológicas pela Universidade Comunitária da Região de Chapecó (Unochapecó). Mestra em Ecologia, PPG-Ecologia (Universidade Federal do Rio Grande do Sul), vinculada ao Laboratório de Ecologia Vegetal (Leveg). Atualmente é doutoranda em Ecologia pelo mesmo PPG. Veja mais na Plataforma Lattes e ResearchGate, ou entre em contato via e-mail: kauanembordin@gmail.com

Júlia Menin é cientista social e mestra em Sociologia pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia, ambos pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é doutoranda no Programa de Pós-Graduação em Sociologia da UFRGS desenvolvendo pesquisa sobre comunidades ribeirinhas da Amazônia e políticas de adaptação às mudanças climáticas. É integrante do grupo TEMAS – Tecnologia Meio Ambiente e Sociedade. Veja mais na Plataforma Lattes ou entre em contato por e-mail.

Sly Wongchuig é engenheiro agrícola formado pela Universidade Nacional Agraria la Molina (UNALM, Peru), mestre em Recursos Hídricos em Sistemas Agrícolas (UFLA), doutor em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental (UFRGS). Atualmente é pesquisador e pós-doutorando no Instituto de Geociências e Ambiente (IGE) na Universidade de Grenoble Alpes (UGA, França). Veja mais na Plataforma Lattes e no ResearchGate.

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