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Rotas de conexão históricas entre mamíferos da Amazônia e da Mata Atlântica

Rotas de conexão históricas entre mamíferos da Amazônia e da Mata Atlântica

08 de abril de 2021 | Tempo de leitura: 6 minutos

Por Arielli Fabrício Machado 

As florestas da Amazônia e da Mata Atlântica são as maiores florestas tropicais úmidas da América do Sul e estão entre as mais diversas do mundo. As florestas tropicais ocupam esse continente há pelo menos 65 milhões de anos, tendo sua origem recentemente relacionada com a queda de meteoro que extinguiu os dinossauros (veja aqui). Desde então, essas florestas passaram por diversas mudanças ao longo do tempo, como expansões e retrações, relacionadas a mudanças geológicas e climáticas. Atualmente elas estão separadas por uma ampla área de ambientes secos (chamada diagonal-seca). Entretanto, existe um mosaico de florestas no interior da diagonal-seca consideradas como uma ponte histórica entre esses biomas. Diferentes evidências, como fósseis, paleoclimáticas e genéticas, sugerem que elas foram conectadas no passado por pelo menos três rotas: 1) rota do Nordeste, 2) rota Central e 3) rota Sudoeste.

          Esse tema foi previamente abordado aqui no blog mostrando uma revisão dos dados disponíveis para espécies de mamíferos com potencial para avaliar essas conexões (leia mais aqui). Seria irônico se no blog do Conexões Amazônicas, não falássemos sobre as conexões históricas dessa vasta e antiga floresta. Outros tipos de rotas amazônicas também já foram discutidas aqui no blog, como as rotas de dispersão indígena reveladas através de estudos genéticos (leia mais aqui) e também através da integração entre genética, geografia e linguística (leia mais aqui); ou ainda, sobre como conexões entre a Amazônia e os Andes podem ser reveladas através de amostras de testemunho de gelo (leia mais aqui). Hoje vamos falar sobre o estudo dessas rotas de conexão históricas entre a Amazônia e a Mata Atlânticas propostas para espécies animais, mostrando como testamos essas rotas através dos dados da distribuição conhecida de múltiplas espécies de mamíferos.

À esquerda, rotas de conexão entre florestas da Amazônia (AM) e a Mata Atlântica (AF): 1) rota do Nordeste, 2) rota Central e 3) rota Sudoeste. O tamanho das setas representa a frequência de uso dessas rotas por espécies animais sugerida na literatura. Modificado de Machado et al. 2021. À direita, foto de uma floresta tropical úmida da América do Sul no Parque Nacional da Amazônia, no estado do Pará (Foto de Thomas L. P. Couvreur publicada em Couvreur et al., 2011).

           Realizamos um estudo buscando avaliar as possíveis rotas de conexão usadas por populações de diferentes espécies de mamíferos que habitam as florestas da Amazônia e da Mata Atlântica. Para isso, usamos dados de distribuição geográfica de espécies de mamíferos florestais que ocorrem tanto na Amazônia quanto na Mata Atlântica extraídos da base de dados da IUCN. A IUCN é uma base de dados que disponibiliza mapas da distribuição conhecida de várias espécies do mundo todo para fins de conservação. Adicionalmente, delimitamos as áreas de conexões sugeridas na literatura usando como base um mapa de ecorregiões (ver mapa), considerando também evidências fósseis, paleoclimáticas e genéticas para essas conexões. Essas áreas delimitadas para cada rota de conexão entre a Amazônia e a Mata Atlântica (rota do Nordeste, rota Central e rota Sudoeste) foram sobrepostas aos mapas de distribuição geográfica das espécies, identificando a ocorrência dessas espécies em cada uma dessas rotas.

           Encontramos 127 espécies de diferentes grupos de mamíferos com potencial para investigar essas conexões, desde marsupiais, roedores, tamanduás, tatus, preguiças e antas até felinos, canídeos, iraras, furões, quatis, macacos e morcegos, entre outros. Comparando as distribuições dessas espécies ao longo de cada uma das três rotas de conexão, diferentemente do que foi proposto anteriormente, encontramos que a maioria dessas espécies se distribui ao longo da rota do Nordeste. A rota Sudoeste teria sido a menos frequente das rotas.

Florestas tropicais úmidas na América do Sul destacando a Amazônia e a Mata Atlântica em verde e suas rotas de conexão: 1) rota do Nordeste, 2) rota Central e 3) rota Sudoeste. O tamanho das setas representa a frequência de ocorrência de espécies de mamíferos das florestas da Amazônia e da Mata Atlântica para cada rota de conexão encontrada no estudo realizado por pesquisadores(as) da UFRGS (leia mais aqui).

          Considerando espécies que ocorrem em mais de uma das rotas simultaneamente, a maioria das espécies ocorre ao longo de todas as rotas, e em segundo maior número corresponde novamente à rota do Nordeste juntamente com a rota Central. A minoria das espécies ocorre simultaneamente nas áreas da rota Central e da rota Sudoeste. Esses resultados novamente indicam o contrário do que se esperava segundo o disponível na literatura até então.

          Com esses resultados, foi possível identificar os diferentes padrões de distribuição geográfica dessas espécies e as áreas de conexão no espaço geográfico. Por exemplo, esses dados não só fornecem uma indicação de que a rota do Nordeste foi usada com mais frequência por populações de uma mesma espécie de mamíferos, incluindo o possível acesso através dos habitats da costa do Nordeste do Brasil, mas também destacam que ela pode ter sido utilizada com mais frequência do que se imaginava anteriormente.

Padrões espaciais da distribuição geográfica de espécies de mamíferos com potencial para investigar conexões entre florestas da Amazônia e da Mata Atlântica reveladas neste estudo (leia mais neste link). A) Espécies que ocorrem nas áreas das três rotas de conexão (Nordeste, Central e Sudoeste); B) Espécies que ocorrem na rota do Nordeste; C) Espécies que ocorrem na rota Central; D) na rota Sudoeste; E) tanto nas áreas da rota do Nordeste quanto Central; F) Central e Sudoeste; G) Nordeste e Sudoeste e H) espécies com distribuição muito disjunta de impossível identificação das possíveis rotas. Cores quentes representam valores de alta sobreposição da ocorrência geográfica das espécies e frias representam valores de baixa ocorrência.

          Através desse estudo, também divulgamos uma lista contendo as espécies de mamíferos potenciais para investigar essas conexões e a quantidade de dados genéticos disponível para essas espécies em um importante banco de dados genéticos (leia mais aqui). Estudos anteriores, incluindo compilações de dados, analisaram um número limitado de espécies de mamíferos (veja uma revisão da literatura em Ledo & Colli 2017). Nós fomos capazes de incluir 127 espécies de mamíferos que ocorrem atualmente na Amazônia e na Mata Atlântica para adicionar informações sobre as conexões históricas entre essas florestas. Nossos resultados destacam a necessidade de estudos que olhem para as relações genéticas dentro de múltiplas espécies, uma vez que tais estudos podem lançar luz sobre a complexidade da evolução e a existência de conexões entre a Amazônia e a Mata Atlântica ao longo do tempo.

 

Ciência se faz com parceria

       Essa pesquisa fez parte da tese de Arielli F. Machado em Ecologia da UFRGS, sob orientação do professor Leandro Duarte, e colaboração dos(as) pesquisadores(as): Maria João R. Pereira do Laboratório de Evolução Sistemática e Ecologia de Aves e Mamíferos (BiMa-Lab) do PPG em Biologia Animal da UFRGS, Cleuton L. Miranda do PPG em Zoologia do Museu Paraense Emílio Goeldi da Universidade Federal do Pará (UFPA), Camila D. Ritter do grupo de Microbiologia Eucariótica da Universidade de Duisburg-Essen da Alemanha e Yennie K. Bredin da Norwegian University of Life Sciences de Norway. Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do CNPq.

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Arielli Fabrício Machado. Mamíferos potenciais para investigar conexões históricas entre a Amazônia e a Mata Atlântica. Blog Conexões Amazônicas, 28 de janeiro de 2021. (acesse aqui)

Batalha-Filho, H., Fjeldså, J., Fabre, P. H., Miyaki, C. Y. (2013). Connections between the Atlantic and the Amazonian forest avifaunas represent distinct historical events. Journal of Ornithology, 154(1): 41-50. (acesse aqui)

Costa, L. P. (2003). The historical bridge between the Amazonia and the Atlantic Forest of Brazil: a study of molecular phylogeography with small mammals. Journal of Biogeography, 30: 71-86. (acesse aqui)

Dinerstein, E., Olson, D., Joshi, A., Vynne, C., Burgess N. D., Wikramanayake, E., et al. (2017). An ecoregion-based approach to protecting half the terrestrial realm. BioScience, 67(6): 534-545. (acesse aqui)

Wing, S. L., Herrera, F., Jaramillo, C. A., Gómez-Navarro, C., Wilf, P., Labandeira, C. C. (2009). Late Paleocene fossils from the Cerrejón Formation, Colombia, are the earliest record of Neotropical rainforest. Proceedings of the National Academy of Sciences, 106(44): 18627-18632. (acesse aqui)

Ledo, R. M. D., Colli, G. R. (2017). The historical connections between the Amazonia and the Atlantic Forest revisited. Journal of Biogeography, 44(11): 2551-2563. (acesse aqui)

Machado, A. F., Ritter, C. D., Miranda, C. L., Pereira, M. R., Duarte, L. (2021). Potential mammalian species for investigating the past connections between Amazonia and the Atlantic Forest.  PLoS ONE 16(4): e0250016. (acesse aqui)

Sobral-Souza, T., Lima-Ribeiro, M. S. (2017). De volta ao passado: revisitando a história biogeográfica das florestas neotropicais úmidas. Oecologia Australis, 21(2), 93-107. (acesse aqui)

Arielli Fabrício Machado é bióloga pela Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), mestre em Ecologia pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) e doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é bolsista Apoio Técnico Científico em projeto na Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

Veja mais na Plataforma LattesResearchGate e Google Scholar

 

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