Saúde

Vidas interrompidas: o suicídio em regiões amazônicas

Vidas interrompidas: o suicídio em regiões amazônicas

15 de julho de 2021 | Tempo de leitura: 5 minutos

Por Eduardo Lira

Falar sobre o suicídio é uma questão de saúde mental que precisa ser abordada. Ao decorrer dos anos, muitas vidas são interrompidas, e isso poderia ser evitado se as pessoas tivessem mais acesso a atendimentos e acompanhamento psicológico. No estado de Roraima, o número de ocorrências de suicídio de indígenas é alarmante, gerando a preocupação de investigar suas possíveis causas. Segundo a Associação Brasileira de Psiquiatria, “O suicídio pode ser definido como um ato deliberado e executado pelo próprio indivíduo, cuja a intenção seja própria morte, de forma consciente e intencional. Mesmo que, ambivalente, usando um meio que ele acredita ser letal”. Realizamos o estudo “Óbitos Por Suicídio Nos Municípios Do Estado De Roraima” para analisar, descrever e identificar os óbitos por suicídio nos municípios do Estado de Roraima (RR) entre os anos 2007 a 2017. Esse estudo foi realizado utilizando dados secundários obtidos a partir do DATASUS (Departamento de Informática do SUS).

Indígenas do Estado de Roraima. Fotografia: Nara Nasco (todos os direitos reservados).

          A tabela a seguir mostra as taxas de suicídios por ano nos municípios de Roraima para o período de 2007 a 2017. As taxas são proporcionais aos casos de morte da população de cada município, em porcentagem. Diante destes dados, a realização de ações voltadas para a identificação de fatores de risco e prevenção nessa região se tornam significativas.

Porcentagens de suicídios em relação ao número de mortes por ano nos municípios de Roraima para o período de  2007 a 2017. Fonte: Autoria própria a partir de dados do DATASUS.

          Os dados estatísticos comprovaram que Amajarí possui a maior taxa de suicídio dentre os 15 municípios, equivalente a 2,54, sendo que seu maior coeficiente foi em 2013 com 5,75. A seguir está o município de Bonfim, com 2,52, com pico no ano de 2007 com 5,86. Em último lugar no índice encontram-se os municípios de Caroebe com 0,32 (maior taxa em 2009 com 1,32) e Rorainópolis com 0,38 (maior taxa em 2012 com 0,78).

          Analisando os casos de suicídio por cor/raça, ilustrado na tabela 2 a seguir, temos que a maioria dos suicídios nos municípios de Amajarí, Bonfim, Normandia, Pacaraima e Uiramutã são de indígenas. Apesar de não se saber ao certo o porquê, pode existir uma relação entre a invasão das terras por conta de agricultores/grileiros e a miscigenação das culturas. Uma boa parte da economia e sustento indígena provém do solo, através do plantio de macaxeira, milho e de outros cultivares regionais.

Com a tomada ilegal das terras, a comunidade indígena acaba não tendo onde cultivar seus alimentos, e por conseguinte gerando uma alteração de fatores bio-psicossociais das comunidades, além da crise de identidade cultural causada pela miscigenação. Esses fatores podem acarretar transtornos psicológicos na população das comunidades indígenas, levando-os, em casos mais graves, ao suicídio.

Casos de suicídios por cor/raça nos municípios de Roraima para o período de  2007 a 2017. Fonte: MS/SVS/CGIAE – Sistema de Informações sobre Mortalidade.

          O estado de Roraima, assim como outros na região Amazônica, em conjunto com seus municípios, necessitam promover mais ações voltadas para evitar a interrupção de vidas causada pelo suicídio, como campanhas educativas voltadas para pessoas com transtornos depressivos, transtornos de personalidades, transtornos bipolares e dependentes químicos. Isto deve ser feito principalmente para as comunidades indígenas, e não apenas em Setembro, que é o mês de combate ao suicídio, mas em todos os meses do ano. Se precisar de um apoio emocional, ligue para o Centro de Valorização da Vida (CVV) – 188, ou procure um profissional de saúde habilitado.

Ciência se faz com parceria

          Os resultados apresentados neste texto são parte da pesquisa realizada por Eduardo Lira durante o curso de bacharelado em enfermagem do Centro Universitário Estácio da Amazônia. A orientação foi da Profa. Me. Ellen Vanuza.

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Associação Brasileira de Psiquiatria. (2014) Suicídio: Informando para prevenir. Brasília: CFM/ABP, p. 09. (acesse aqui).

Brasil, Ministério da Saúde. (2021) Banco de dados do Sistema Único de Saúde-DATASUS. (acesse aqui).

Macedo, N. T. (2018) Caracterização dos Casos de Suicídio no Estado de Roraima-RR. Boa Vista, 14. (acesse aqui).

Silva, E.L.C., Hentges, T.J.A., Bertelli, E.V.M. (2019). Óbitos Por Suicídio Nos Municípios Do Estado De Roraima. In: Anais do EICEA 2019 – XI Encontro de Iniciação Científica da Estácio Amazônia. Anais. Boa Vista (RR), Estácio da Amazônia. (acesse aqui).

Eduardo Lira é graduando em Enfermagem pelo Centro Universitário Estácio da Amazônia. É diretor de pesquisa da Liga Acadêmica de Saúde Mental em Enfermagem e Psicologia (LASMEP) da Universidade Federal de Roraima (UFRR).

Veja mais na plataforma Lattes.  

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