Nova fronteira do desmatamento apresenta aumento nos registros de incêndios

Nova fronteira do desmatamento apresenta aumento nos registros de incêndios

22 de março de 2024 | Tempo de leitura: 5 minutos

Por Débora Joana Dutra   

A imagem mostra uma paisagem com chão batido e com vegetração degradada, com árvores esparsas e vegetação baixa.

Área de degradação florestal na região de Boca do Acre em 2021. Fonte: Beatriz Cabral/CEMADEN

Entre os anos de 2003 e 2019, uma área florestal equivalente a seis vezes o território da cidade de São Paulo foi devastada pelo fogo no sudoeste do Estado do Amazonas. Esta região é pressionada pelo processo de degradação florestal, que vem se agravando com a extração ilegal de madeira e outras atividades ligadas à agropecuária ao longo das duas principais rodovias que cortam o local.

De acordo com o estudo publicado por pesquisadores do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) na revista científica Fire, os incêndios atingiram 4.141 km² de floresta, sendo 3.999 km² de áreas de vegetação nativa (floresta primária) neste período. A variação anual demonstrou que a área afetada pelo fogo variou de 33 km² em 2011 até um pico de 681 km² em 2019.

Os cientistas analisaram dados de uma região localizada na nova fronteira do desmatamento dentro da Amazônia Legal brasileira. O estudo focou no município de Boca do Acre (AM) e seu entorno considerando uma extensão de 25 km, o que inclui parte dos municípios de Lábrea (5%), Pauini (19%), Acrelândia (2%), Senador Guiomard (16%), Porto Acre (79%), Bujari (28%), Sena Madureira (10%) e Manoel Urbano (14%). Esta região engloba sete terras indígenas (TIs) – Apurinã, Boca do Acre, Camicuã, Igarapé Capana, Inauiní/Teuiní, Peneri/Tacaquiri e Seruini/Mariene – e três unidades de conservação (UCs) – Reserva Extrativista Arapixi, Mapiá-Inauiní e a Floresta Nacional do Purus.

A pesquisa mostrou que a perda da floresta por degradação tende a aumentar a ocorrência de incêndios, resultando em uma transformação da paisagem de floresta para trechos agrícolas e de pastagens. De acordo com a pesquisa, isso ocorre principalmente próximos às rodovias BR-317/364 e dentro das propriedades rurais, conforme registrado no Cadastro Ambiental Rural (CAR). 

Fatores meteorológicos, como o agravamento da estação seca, influenciaram na propagação do fogo, principalmente em regiões próximas a áreas recentes de desmatamento, funcionando como combustível para as queimadas devido ao acúmulo de matéria orgânica.

Os resultados da pesquisa mostraram um rápido e contínuo crescimento de áreas afetadas pelo fogo dentro de florestas públicas não destinadas, principalmente a partir de 2012, com a aprovação do Novo Código Florestal. Neste período, o aumento dos incêndios foi de 66% (variação de 33 km²) em 2012, data de aprovação do Novo Código Florestal, para 84% (variação de 681 km²) em 2019, ano considerado como de pico de áreas afetadas pelo fogo.

A imagem mostra uma paisagem com floresta desmatada e queimada.

Área queimada na região de Boca do Acre em 2021. Fonte: Teule Branco/CEMADEN

O estudo destaca a importância da preservação de Unidades de Conservação, Terras Indígenas e vegetação nativa para frear a derrubada da floresta e o processo de fragmentação florestal.

Entre 2003 e 2019, 1,3% das áreas protegidas foram queimadas, ou seja, 189,13 km2, sendo a maior parte nas Terras Indígenas de Boca do Acre e Apurinã, localizadas próximas à BR-317 e propriedades rurais.

Os resultados demonstraram a necessidade de incluir estimativas de risco de incêndio e impacto sob os climas atual e futuro em políticas públicas voltadas para a Amazônia. Isto é fundamental para evitar a perda dos serviços ecossistêmicos, uma vez que, se a degradação florestal não for contida, a perspectiva para os próximos anos é de aumento da área queimada na região.

Ciência se faz com parceria

A pesquisa recebeu apoio da FAPESP por meio de projeto 20/08916-8 e FAPEAM 0102016301000289/2021-33, sendo coordenado pelos pesquisadores Liana Oighenstein Anderson e Philip Martin Fearnside, e contou com o apoio dos seguintes pesquisadores do Met Office Hadley Centre, NASA JPL, Universidade da Califórnia e Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais: Aurora Miho Yanai Nascimento, Chantelle Burton, Christopher Jones, Luiz Eduardo Oliveira e Cruz de Aragão, Paulo Maurício Lima Alencastro Graça, Ricardo Dal’Agnol da Silva, Richard Betts, Daniel Braga, Teule Branco, Beatriz Figueiredo Cabral, Débora Joana Dutra.

 

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Dutra, D., et al. 2022. Fire Dynamics in an Emerging Deforestation Frontier in Southwestern Amazonia, Brazil. Fire, 6(1). (acesse aqui)

Projeto “Predição da degradação florestal como subsídio a ações para evitar as queimadas e os incêndios florestais”. (acesse aqui).

Grupo de pesquisa TREES. (acesse aqui).

Sobre a autora
A imagem mostra uma mulher branca, de cabelo na altura dos ombros, de camisa verde e mochila nas costas. Ela está sorrindo. Ao fundo uma paisagem de floresta e de rio.

Débora Joana Dutra é engenheira ambiental e sanitarista pelo Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (CEFET-MG) e mestre em Análise e Modelagem de Sistemas Ambientais pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Atualmente é colaboradora no projeto FAPESP/FAPEAM no Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais. Veja mais no Currículo Lattes e ResearchGate.