Este texto foi publicado originalmente na coluna do Conexões Amazônicas, no site Portal Amazônia

Contatos imediatos com uma onça-pintada

Em uma fração de segundos, rápido demais para o cérebro assimilar o que acontecia, mas abrupto o suficiente para que o coração disparasse, a onça avançou em minha direção por alguns metros.

15 de março de 2024 | Tempo de leitura: 5 minutos

Por Miguel Monteiro

Onça-pintada melânica capturada na Reserva Mamirauá para monitoramento. Foto: Miguel Monteiro

Eu me apoiava em uma árvore e olhava fixamente para a onça-pintada que estava sentada à minha frente, encarando-me com um olhar penetrante e sólido. A onça em questão, um macho preto de pouco mais de 60 quilos, estava presa em nossa armadilha de captura científica (atividade a qual obtivemos todas as licenças necessárias com os órgãos competentes para realizar). Nosso objetivo com a captura era entender melhor os padrões de movimento e comportamento das onças no ambiente de várzea, assim como obter amostras de sangue para estudos epidemiológicos (saiba mais AQUI).

A onça, quando na armadilha, reage a todos à sua volta, seu olhar inflexível sempre atento a cada som, cada movimento.

Precisávamos arranjar um jeito para que a veterinária responsável pela captura conseguisse disparar o dardo anestésico na perna traseira da onça enquanto ela não estivesse olhando. Nos movimentávamos em volta dela. Cada vez que pisava em um galho seco ou esbarrava em uma folha, os olhos da onça se encontravam com os meus. Ora ela estava sentada, ora deitava e rolava como um de seus parentes domésticos. Sua cauda balançava de um lado para o outro ou batia contra o chão, numa clara sinalização de que não estava muito feliz com a situação. A armadilha que utilizamos é um laço que se prende na pata da onça e fica ancorado no chão, como descrito neste estudo. Portanto, ela estava bem presa, mas havia um raio de poucos metros onde conseguia se movimentar.

Pesquisadores realizando registros fotográficos da onça capturada. Foto: Brian Dennis

Eventualmente, chamava a atenção da onça para tentar ajudar a veterinária a ter um ângulo para disparar o dardo anestésico. Como se soubesse exatamente o que estava acontecendo, a onça parecia dar atenção especial à pessoa que carregava o dardo e dificilmente dava-lhe as costas. Fiz um barulho proposital para ver se ela virava a sua atenção para mim. Deu certo.

Em uma fração de segundos, rápido demais para o cérebro assimilar o que acontecia, mas abrupto o suficiente para que o coração disparasse, a onça avançou em minha direção por alguns metros, até que o laço da armadilha a impediu de avançar mais. Racionalmente, eu sabia que a armadilha é segura e que eu estava fora do alcance da onça. Mas em um momento como esse, o lado instintivo não quer nem saber de lógica ou raciocínio. Tudo o que eu via à minha frente era uma onça-preta com fúria no olhar dando um bote em minha direção, soltando um rosnado grave e gutural que arrepiava cada nervo. A adrenalina dispara, o sangue esquenta. Logo a onça se aquietou novamente e dirigiu sua atenção a outros estímulos. Para mim, foram necessários alguns segundos para que me desse conta do que havia acabado de acontecer.

Pesquisador Miguel Monteiro ao lado de onça capturada para instalação de colar com GPS. Foto: Brian Dennis

Eventualmente, após um rápido jogo de gato e rato, o dardo foi habilmente disparado e encontrou seu alvo. Em poucos minutos a onça estava anestesiada, e ao nos aproximarmos dela, parecia apenas estar tirando uma soneca tranquila. Uma cena bem diferente daquela que havia presenciado momentos antes. Fizemos todo o procedimento: soltamos a onça do laço, pesamos ela, colocamos um colar com sinal de rádio e GPS, coletamos amostras de sangue e a observamos até que o efeito da anestesia tivesse se dissipado o suficiente para que ela começasse a se virar sozinha e entrasse para dentro da floresta novamente. 

Nesse momento, a equipe vai se acalmando, se parabeniza pelo ótimo trabalho e recolhemos o material para voltar à nossa base de campo. Quando olho para trás, sinto que vou me deparar com aquele par de olhos cintilantes emoldurados por uma feição felina – mas não. Ficou apenas a memória do encontro.

Com a colaboração de:

Miguel Monteiro é biólogo, original do Rio de Janeiro, mas mora em Tefé, no Amazonas, há mais de 5 anos. Trabalhou com pesquisa e conservação de onças-pintadas por mais de 7 anos e hoje se dedica à fotografia e cinegrafia de natureza e divulgação científica.

Confira o estudo completo AQUI.

Sobre o autor

Ayan Fleischmann é pesquisador titular do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, sendo mestre e doutor em recursos hídricos. Em sua trajetória tem pesquisado as águas e várzeas amazônicas em suas múltiplas dimensões. É o presidente da ONG Rede Conexões Amazônicas e seu representante na coluna Conexões Amazônicas no Portal Amazônia.

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