Centro de Ciências que Celebra a Biodiversidade Amazônica

28 de março de 2025 | Tempo de leitura: 6 minutos

Por Miani Corrêa Quaresma e Bianca Venturieri

Centro de Ciências e Planetário do Pará, Universidade do Estado do Pará. Fonte: Miani Quaresma.

Como biólogas e professoras de biologia, acreditamos que o ensino de ciências deve ultrapassar as paredes da sala de aula, conectando o conhecimento ao mundo real. A biodiversidade, com sua infinita complexidade e riqueza, é um convite aberto a reflexões críticas e práticas sobre nosso papel na sociedade. Quando abordada de forma integrada, ela revela um universo de possibilidades educativas, especialmente em espaços como os Centros de Ciências.

Esses Centros são mais do que simples locais de exposição; são verdadeiros laboratórios de vivências científicas. Com metodologias interativas, eles tornam o aprendizado dinâmico, aproximando os estudantes dos conteúdos de biodiversidade e despertando neles um senso de pertencimento ao meio ambiente.

Foi nesse espírito que vivenciamos experiências transformadoras no Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPP) entre os anos de 2016 e 2017. O CCPP é uma instituição interdisciplinar de educação não formal vinculada à Universidade do Estado do Pará (UEPA), em Belém, Pará. Neste espaço, e durante o período de nossas vivências, nosso foco foi o desenvolvimento de atividades educativas voltadas à biodiversidade, para um público diverso, desde estudantes da educação básica a universitária, com visitações públicas e agendadas, destacando a importância de ecossistemas amazônicos.

Da camuflagem do Bicho-pau ao Brilho do sauim-preto: aprendendo biodiversidade no Centro de Ciências

A Amazônia nos ensina a cada detalhe, seja na forma como o bicho-pau se confunde com os galhos ao seu redor ou na sabedoria das comunidades locais ao utilizar o miriti. Em uma jornada pelo CCPP, estudantes exploram essas conexões, descobrindo como somos todos responsáveis pela preservação do ecossistema amazônico.

No universo dos insetos, revelamos uma característica básica: todos possuem três pares de patas. Mas a natureza, sempre surpreendente, deu a alguns deles, como o bicho-pau, a habilidade de camuflagem, permitindo que passem despercebidos no ambiente. Essa adaptação fascinante serviu de gancho para reforçar a importância do cuidado com a biodiversidade local, mostrando aos estudantes que preservar é, também, um ato de pertencimento e responsabilidade.

Exposição de insetos no Centro de Ciências e Planetário do Pará. Fonte: Miani Quaresma.

Já entre os mamíferos taxidermizados (que é uma forma de preservação da pele de animais para exposição em museus e coleções científicas) expostos no CCPP, três espécies de primatas da Amazônia chamaram atenção: o sauim-preto (Saguinus niger), o macaco-da-noite (Aotus infulatus) e o macaco-de-cheiro (Saimiri sciureus).

  • Sauim-preto: Com sua dieta baseada em frutos, insetos e pequenos vertebrados, o sauim-preto depende da preservação das florestas nativas para sobreviver. Durante as explicações, destacamos a funcionalidade de suas garras, que permitem que ele se mova verticalmente pelos troncos das árvores, e seus dentes fortes, adaptados para processar os alimentos. Para alunos com deficiência, o toque foi permitido, proporcionando uma experiência sensorial mais rica e uma compreensão mais profunda da espécie.
  • Macaco-da-noite: Ao apresentar o esqueleto deste primata, focamos em suas órbitas oculares grandes, uma adaptação essencial para sua vida noturna. Também explicamos como sua cauda longa é fundamental para o equilíbrio ao se deslocar entre os galhos, exemplificando o comportamento arborícola típico de sua espécie.
  • Macaco-de-cheiro: Presente em áreas urbanas de Belém, como o Bosque Rodrigues Alves, este pequeno primata foi usado para discutir a interação entre humanos e meio ambiente. A taxidermia artística mostrou como sua pelagem o ajuda a se camuflar nas copas das árvores, enquanto explicamos por que alimentar esses animais com alimentos inadequados, como pipoca ou pão, pode prejudicar sua saúde.

Exposição de mamíferos taxidermizados, como o macaco-da-noite e sauim, no Centro de Ciências e Planetário do Pará. Fonte: Miani Quaresma.

Além da fauna, a flora amazônica também brilhou. O miriti ou buriti (Mauritia flexuosa) foi destaque, com sua importância para as comunidades tradicionais amazônicas. Os frutos não só alimentam populações ribeirinhas como também desempenham papel crucial na cadeia trófica local. Durante as exposições, os estudantes descobriram que o buriti gera subprodutos como um óleo utilizado no tratamento de queimaduras, além de ser rico em vitaminas A e B, e sacarose, que serve para a produção de açúcar.

A etnobotânica (que é o estudo das relações de pessoas com as plantas) ganhou vida ao mostrar como as fibras do buriti são transformadas em esteiras, redes, chapéus e até nos famosos “brinquedos de miriti”, ícones culturais do Círio de Nazaré. Ao conectar a ciência com a cultura local, enfatizamos como os saberes tradicionais dialogam com a preservação ambiental e a identidade amazônica

Espaço do Conhecimento Biodiversidade, do Centro de Ciências e Planetário do Pará. Fonte: Miani Quaresma.

No final de nossa revisitação sobre memórias não tão distantes, é evidente que o aprendizado no CCPP transcende a sala de aula. Essas experiências ajudaram a consolidar uma visão construtivista da educação, na qual os estudantes são protagonistas do próprio processo de aprendizagem. Inspirados por uma abordagem ética, crítica e inclusiva, reforçamos o compromisso de formar educadores que articulem teoria e prática, construindo uma sociedade mais consciente e comprometida com o futuro da biodiversidade e da Amazônia.

Ciência se faz com parceria

Este trabalho foi desenvolvido junto a Universidade Estadual do Pará e com o Centro de Ciências e Planetário do Pará, durante um estágio não obrigatório. O trabalho foi desenvolvido em parceria com mais um pesquisador: Edmar Fernandes Borges Filho.

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

QUARESMA, M. C.; VENTURIERI, B. A. Biodiversidade Amazônica em um espaço não-formal: o caso do Centro de Ciências e Planetário do Pará. Educação Ambiental em Ação, v. 72, p. 1, 2020.

QUARESMA, M. C.; VENTURIERI, B.; FILHO, E. F. B. Ensino de ciências, inclusão e espaço não-formal: o uso de uma tecnologia assistiva no ensino de citologia. Areté (Manaus), v. 11, p. 1, 2019.

Sobre as autoras

Miani Corrêa Quaresma, graduada em Licenciatura Plena em Ciências Biológicas pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Mestra em Ecologia Aquática e Pesca (UFPA) e doutoranda em Educação em Ciências e Matemáticas (PPGECM-UFPA). Veja mais na Plataforma Lattes ou entre em contato.

Bianca Venturieri, doutora pelo Programa de Pós-graduação em Educação para a Ciência da Unesp-Bauru. Professora Assistente do curso de Licenciatura em Ciências Naturais da Universidade do Estado do Pará (UEPA) e Professora do Centro de Ciências e Planetário do Pará (CCPP). Veja mais na Plataforma Lattes ou entre em contato

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