Impactos do aquecimento global e do desmatamento no clima da Amazônia

Impactos do aquecimento global e do desmatamento no clima da Amazônia

23 de fevereiro de 2024 | Tempo de leitura: 8 minutos

Por Murilo Ruv Lemes

Trecho do Rio Amazonas com alta quantidade de nuvens que serão transportadas ao longo do centro-sul do Brasil. Foto: Instituto Soka Amazônica

Nas últimas décadas, vários estudos identificaram os impactos que a substituição da floresta amazônica por pastagem degradada ou área agrícola pode causar no clima regional e global. Um exemplo disso é a mudança que o desmatamento causa nos rios voadores da Amazônia.

O termo rios voadores se popularizou no final dos anos 90, após uma série de estudos e do projeto Expedição Rios Voadores que teve como um dos objetivos a disseminação dessa ciência para a população. A umidade que chega na floresta amazônica é provida pela grande evaporação de água que ocorre no oceano Atlântico Tropical, sendo transportada pelos ventos para dentro do continente. A floresta amazônica irá, através da própria “fabricação de água” pela evapotranspiração das árvores, abastecer e manter esse “rio”. Como o relevo a oeste é extremamente montanhoso (onde está a Cordilheira do Andes), essa umidade é barrada e muda de direção, indo para as regiões centro-oeste, sudeste e parte do sul do Brasil, principalmente ao longo do verão destas regiões (meses de dezembro, janeiro e fevereiro). Desse modo, a grande quantidade de água que é transportada pela atmosfera nesse processo pode ser comparada a um rio na superfície, por isso o termo “rios voadores”. Sendo assim, o avanço do desmatamento na Amazônia influência na umidade que é transportada para essas áreas , afetando todo o regime de chuvas, as quais são indispensáveis para a produção dessa região que concentra as maiores áreas agrícolas e de geração de energia do país (centro-oeste, sudeste e parte do sul). 

Áreas com floresta são conhecidas por sua biodiversidade, com milhares de espécies de animais, fungos e plantas. As atividades ecossistêmicas desenvolvidas nesse bioma estão em completa sintonia entre biosfera e atmosfera, cada qual com sua função, por exemplo, árvores maduras retiram grande quantidade de dióxido de carbono e isto auxilia no resfriamento da atmosfera. A floresta tem papel importante no sequestro de dióxido de carbono (CO2) da atmosfera, o qual armazena em seu solo e utiliza em seus processos fisiológicos, como por exemplo a fotossíntese, produção de frutos e de folhas. Quando a floresta é desmatada, esse carbono retorna para a atmosfera e gera diversas mudanças no clima de curto e longo prazo, as quais têm sido reportadas nas últimas décadas pelos relatórios do Painel Intergovernamental para a Mudança de Clima (IPCC) e outras instituições.

Muitos pesquisadores acreditam que chegamos ao ponto de inflexão do clima global, como indicado em um recente artigo publicado na revista Nature Climate Change.
O estudo concluiu que, mesmo que parássemos agora com toda a emissão de gases do efeito estufa, as consequências do aumento da temperatura global seriam irrecuperáveis. Em outras palavras, isso causaria diversas alterações não somente no clima, mas em diversas relações para a vida no planeta Terra. Em termos sociais, as perdas seriam irreparáveis, principalmente nos países que apresentam alta vulnerabilidade (como o Brasil), com baixíssimas práticas de combate às mudanças climáticas, o que também foi relatado em um artigo recentemente publicado na revista International Journal of Disaster Risk Science. Baseado nesses fatos, estudamos conjuntamente os impactos dos efeitos do desmatamento da floresta amazônica e do aquecimento global (aumento da temperatura ocasionado pelo aumento das concentrações de CO2 atmosférico) no clima da Amazônia. O nosso estudo, publicado na revista International Journal of Climatology, foi baseado em um cenário futuro em que o planeta estará 2°C mais quente do que no período pré-industrial (1861-1880). Esta situação futura foi definida com base em uma metodologia chamada “Projeto HELIX” e possivelmente será atingida devido a toda a quantidade de CO2 que já foi lançado para a atmosfera nas últimas décadas. Dessa forma, foram simulados três diferentes cenários futuros (caminhos que são seguidos baseados pela interferência humana). O primeiro, no qual o valor das concentrações de CO2 atmosférico é dobrado (776 ppm), com o objetivo de forçar o modelo atmosférico a ter uma alta concentração de CO2 em pouco tempo. O segundo, representando a conversão total da floresta amazônica por pastagem, com o objetivo de entender como as drásticas alterações na paisagem se comportam. E, por fim, o terceiro, que considera as duas situações anteriores ocorrendo conjuntamente. Estes cenários podem parecer distantes, mas compreender cenários drásticos auxiliam na preparação de medidas de adaptação e mitigação para a sociedade.
Os resultados indicaram que ocorreria superaquecimento de toda a Bacia Amazônica nos cenários simulados, entre 3°C e 6.5°C na média. Isso sugere uma inflexão nas condições de vida na área. Além disso, todo o regime hidrológico local e regional seria drasticamente alterado em todos os cenários avaliados.

Diferença de temperatura entre os períodos de Dezembro a Fevereiro e Junho a Agosto para os cenários de duplicação da concentração de CO2 e/ou desmatamento completo da floresta amazônica para o período de aquecimento SWL2 do modelo CPTEC-BAM 1.2. Isso significa que se o planeta aquecer 2°C em sua temperatura média, a temperatura na Amazônia aumentará entre 2,5 a 6,5°C. Fonte: Ruv Lemes et al. (2023).

A redução da chuva e da evapotranspiração das plantas são claramente demonstradas devido à condição de desmatamento, mas também são sensíveis ao aumento do CO2. Tal resultado indica que a alta concentração de CO2 na atmosfera altera o padrão de funcionamento da vegetação, mais precisamente o mecanismo responsável pela troca de CO2 e água entre superfície e atmosfera, papel desenvolvido por estruturas presentes na superfície das folhas chamadas estômatos. Os estômatos são responsáveis por captar CO2 e liberar vapor d’água para a atmosfera. Como a concentração de dióxido de carbono é muito alta, os estômatos passam mais tempo fechados, ou seja, esse excesso cria um bloqueio em seu funcionamento, o que resulta numa grande redução da evapotranspiração. Esse efeito na floresta pode ser comparado ao desmatamento completo da floresta amazônica nos valores projetados das chuvas, podendo reduzir em mais de 1 mm/dia. Em outras palavras, tanto o desmatamento quanto a alta concentração de CO2 na atmosfera podem desencadear efeitos similares para o clima. Com todos os impactos no clima relatados, o mecanismo de transporte de umidade para o centro-oeste, sul e sudeste do Brasil sofreria grandes alterações em seu padrão médio. O fluxo de umidade (o “rio voador”) para os estados do sudeste se enfraqueceria, enquanto o fluxo para o sul ficaria mais forte, o que afetaria todo sistema agrícola e de geração de energia do país. Medidas de adaptação são urgentes para preparar a sociedade a essa nova realidade. Além disso, o avanço do desmatamento na floresta amazônica, assim como em todas as florestas tropicais, precisa ser contido o mais rápido possível. Ao mesmo tempo, é preciso iniciar um processo urgente de restauração de biomas. Somente dessa forma será possível mitigar os efeitos do aquecimento global.
Ciência se faz com parceria

O estudo apresentado neste texto foi desenvolvido na Divisão de Impactos, Adaptação e Vulnerabilidade do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (DIAV-INPE). O artigo contou com as participações do Dr. Gilvan Sampaio (coordenador geral de ciências da terra-INPE), Dr. Gilberto Fisch (UNITAU), Lincoln Muniz Alves (DIAV-INPE), Jelena Maksic (DIAV-INPE), Marcelo Guatura (CGCT-INPE) e Marília Shimizu (CGCT-INPE). Houve apoio financeiro da CAPES, FAPESP e do CNPq para a elaboração desta pesquisa.

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Ruv Lemes et al. 2023. Impacts of atmospheric CO2 increase and Amazon deforestation on the regional climate: A water budget modelling study. International Journal of Climatology, 43(3), 1497-1513. (acesse aqui)

Página do Projeto Expedição Rios Voadores. (acesse aqui)

Wunderling et al. 2023. Global warming overshoots increase risks of climate tipping cascades in a network model. Nature Climate Change, 13(1), 75-82. (acesse aqui)

Gomes, G. et al. 2022. (In) visibilities About the Vulnerabilities of People with Visual Impairments to Disasters and Climate Change: A Case Study in Cuiabá, Brazil. International Journal of Disaster Risk Science, 13(1), 38-51. (acesse aqui)

Iniciativa HELIX Climate: High-End cLimate Impacts and eXtremes. (acesse aqui)

Sobre o autor

Murilo Ruv Lemes é doutor em Ciência do Sistema Terrestre pelo INPE e Universidade de Manchester, mestre em Meio Ambiente e Recursos Hídricos pela UNIFEI, e licenciado em Geografia pela UNITAU. Veja mais na Plataforma Lattes, LinkedIn e no ResearchGate.