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Entre o tradicional e o laboratório: o conhecimento de pescadores sobre as teias alimentares

Entre o tradicional e o laboratório: o conhecimento de pescadores sobre as teias alimentares

2 de dezembro de 2021 | Tempo de leitura: 5 minutos

Por Paula Pereyra

Na Amazônia, o pescado pode ser considerado a principal fonte de proteína para as populações da região, e tem grande importância para o sustento e renda dos ribeirinhos. Além disso, a região passa por rápidas transformações de origem antrópica, como construção de barragens, mineração, desmatamento e pesca excessiva. Isto faz com que pesquisas sobre a ecologia de peixes sejam hoje especialmente importantes.

Pescadores no rio Tapajós. Foto: Paula Pereyra

Podemos compreender o papel ecológico dos peixes a partir de estudos sobre os níveis tróficos (isto é, a posição que os organismos ocupam nas teias alimentares), que por sua vez nos permitem avançar o entendimento de como os ecossistemas estão mudando. Em nosso estudo, comparamos os níveis tróficos dos peixes obtidos de duas formas: a partir de (1) entrevistas com pescadores e (2) análises de laboratório, através da avaliação de isótopos estáveis. Os isótopos ocorrem naturalmente no ambiente e podem ser incorporados nos tecidos dos organismos através da alimentação. Diversos elementos têm sido utilizados em pesquisas ecológicas, sendo comumente empregados, em estudos de alimentação, os isótopos de carbono e nitrogênio. 

Neste estudo, comparamos dois importantes rios amazônicos: o Tocantins e o Tapajós. Dado que o rio Tocantins é um dos mais modificados da Amazônia, devido à grande área desmatada e à presença de hidrelétricas ao longo de seu curso, buscamos compreender o quanto estas modificações afetam as relações alimentares entre os organismos deste rio, quando comparadas ao rio Tapajós, que possui uma maior extensão de área preservada.

Entrevista sendo realizada com pescador no rio Tocantins. Foto: Henrique Negrello

A análise de isótopos estáveis foi feita com amostras de 63 indivíduos de peixes e comparada com as informações de entrevistas com 98 pescadores. Além disso, com base nas entrevistas, avançamos no conhecimento sobre a alimentação de seis espécies de peixes que são importantes para a pesca e de seus predadores. As espécies estudadas foram a Pescada (Plagioscion squamosissimus), Tucunaré (Cichla pinima), Piranha (Serrasalmus rhombeus), Aracu (Leporinus fasciatus), Charuto (Hemiodus unimaculatus), e Jaraqui (Semaprochilodus spp.). Também pudemos comparar os dois rios estudados. 

Encontramos valores muito próximos de posição trófica dos peixes quando comparados os dados obtidos nas entrevistas com as análises realizadas no laboratório. Os pescadores no rio Tapajós citaram 57 alimentos que são utilizados pelos peixes (por exemplo, diferentes tipos de frutos) e 22 predadores dos peixes, enquanto no rio Tocantins foram mencionados 27 alimentos e 18 predadores dos peixes. Além disso, os principais alimentos citados pelos pescadores como importantes para os peixes e predadores estão de acordo com estudos prévios realizados em outras regiões da Amazônia. Com base no conhecimento dos pescadores, foi possível a construção de diagramas que mostram as principais interações entre os peixes e seus alimentos e entre os peixes e seus predadores, para ambos os rios, conforme mostra a figura abaixo.

Diagrama representando as interações alimentares dos peixes com base no conhecimento ecológico local dos pescadores sobre as presas dos peixes. Para o rio Tapajós, foram entrevistados 65 pescadores, e para o rio Tocantins, 33 pescadores. Os números são a porcentagem de pescadores entrevistados que mencionaram cada interação alimentar. As caixinhas que estão em amarelo são dados que concordam com as relações alimentares de peixes relatadas na literatura biológica, as caixinhas em branco são informações que não foram encontradas na literatura. Adaptado de Pereyra et al 2021.

Em relação aos predadores dos peixes (veja o diagrama abaixo), foi possível avançar nosso conhecimento sobre espécies emblemáticas como o boto-vermelho (Inia spp.) e o peixe pirarucu (Arapaima spp.), que estão ameaçados de extinção e que carecem de estudos ecológicos para a região. O número de potenciais predadores dos peixes não diferiu entre os rios. Por outro lado, com relação às presas dos peixes, um maior número foi mencionado pelos pescadores no rio Tapajós quando comparado ao rio Tocantins. Essa maior quantidade de alimentos dos peixes no Tapajós consistiu principalmente de frutos, o que pode ser um indicativo da menor disponibilidade desse tipo de alimento no rio Tocantins, considerando o aumento do desmatamento nesta região.

 

Diagrama representando as interações alimentares dos peixes com base no conhecimento ecológico local dos pescadores sobre os predadores dos peixes. Para o rio Tapajós, foram entrevistados 65 pescadores, e para o rio Tocantins, 33 pescadores. Os números são a porcentagem de pescadores entrevistados que mencionaram cada interação alimentar. As caixinhas que estão em amarelo são dados que concordam com as relações alimentares de peixes relatadas na literatura biológica, as caixinhas em branco são informações que não foram encontradas na literatura. Adaptado de Pereyra et al 2021.

 

Assim, demonstramos que os pescadores detêm um amplo conhecimento sobre as relações alimentares que envolvem os peixes. O conhecimento dos pescadores pode colaborar para a obtenção de dados de forma rápida, confiável e de baixo custo sobre a ecologia alimentar dos peixes e de seus predadores. Esse conhecimento dos pescadores precisa ser valorizado e incorporado em políticas públicas relativas ao manejo das espécies, visando à conservação dos recursos naturais. Além disso, as mudanças antrópicas que estão ocorrendo na Amazônia influenciam diretamente a vida dos pescadores, que dependem dos peixes para nutrição e sustento de suas famílias.

Comunidade de São Luiz do Tapajós que está ameaçada por empreendimentos hidrelétricos. Foto: Paula Pereyra

Ciência se faz com parceria

Além de Paula Pereyra, a pesquisa também foi liderada pelo professor Renato A. M. Silvano, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e contou com a colaboração do professor Gustavo Hallwass, da UFOPA/Oriximiná, e do professor Mark Poesch, da Universidade de Alberta (Canadá).

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Pereyra, P.E.R, Hallwass, G., Poesch, M.S. and R. Silvano (2021) ‘Taking fishers’ knowledge to the lab’: an interdisciplinary approach to understand fish trophic relationships in the Brazilian Amazon. Frontiers in Ecology and Evolution. (acesse aqui). 

Reportagem G1: Pesquisa comprova riqueza de conhecimento dos pescadores sobre cadeia alimentar de peixes na Amazônia brasileira. (acesse aqui). 

Nunes, C. B, Dutra, M. C, Pereyra, P. E. R, Cunha, C. V, Silvano, R. A. M. Pescando Ciência: Construindo pontes entre o conhecimento local e a pesquisa. 2020. (acesse aqui).

Laboratório de Ecologia Humana e de Peixes (LEHPE). (acesse aqui). 

Pereyra, P.E.R.P, Hallwass, G, Silvano, R.A.M. Piranha é um peixe voraz? Integrando metodologias para entender a estrutura trófica da piranha Serrasalmus rhombeus na Amazônia Brasileira. (acesse aqui).

Paula Evelyn Rubira Pereyra é bióloga e mestre em Oceanografia Biológica pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e doutora em Ecologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Atualmente é bolsista de pós-doutorado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Veja mais na Plataforma Lattes e no ResearchGate.

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