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Falta água (potável) no meio da Amazônia

Falta água (potável) no meio da Amazônia

21 de outubro de 2021 | Tempo de leitura: 7 minutos

Por Leonardo Capeleto

A Amazônia é indubitavelmente gigantesca. Sem falar nos outros países, fazem parte dela nove estados brasileiros. Dois destes, Pará e Amazonas, são os maiores do Brasil e estão inteiramente cobertos por este bioma. O Amazonas é o maior estado, cobrindo 18% do território brasileiro. Em compensação, tem a menor densidade populacional do país. E muitos destes amazonenses – 21%, segundo o último Censo – vivem nas áreas rurais. As áreas rurais podem ser mais próximas ou mais distantes dos centros urbanos. Independentemente disso, possuem muitas similaridades ao redor do mundo: além de menor número de pessoas, as áreas rurais geralmente também possuem menos infraestruturas que as cidades.

Os rios se afastam das comunidades durante as secas, dificultando o acesso à água na várzea amazônica. Foto: Leonardo Capeleto

Na região com a maior disponibilidade de água doce do planeta, milhões de pessoas ainda não possuem acesso seguro à água potável. Com volumosas chuvas – que chegam a ultrapassar os 3.000 milímetros anuais – e centenas de rios e igarapés, água nunca falta. O problema nunca foi a quantidade, mas a qualidade das águas que chegam nas casas rurais amazonenses.

Ao ler sobre uma precariedade de abastecimento de água, comumente pensaremos na escassez hídrica – seja da imagem típica do Sertão ou de muitas grandes cidades nos períodos de estiagem. Mas o abastecimento de água envolve mais do que o simples acesso à água bruta. Envolve, mais do que nada, o acesso à água potável.

O conceito de potabilidade envolve uma série de parâmetros físico-químicos e microbiológicos. Mas, de forma direta e resumida, a água potável não gera riscos à saúde e bem-estar das populações quando consumida. E, além do consumo direto ao beber ou cozinhar, as águas são consumidas de muitas formas.

No meio da Amazônia, há dezenas de milhares de pessoas. Muitas delas vivem em comunidades ribeirinhas, sendo algumas destas localizadas a centenas de quilômetros do centro urbano mais próximo. A maior parte destas não possui sistemas de abastecimento de água ou saneamento.

No estado do Amazonas, os rios de águas brancas e pretas – como o Solimões e o Negro – são de complexo tratamento domiciliar devido às grandes quantidades de sólidos suspensos e matéria orgânica. E em muitas residências, a solução é captar as águas das chuvas.

As chuvas não faltam na Amazônia, mas há meses em que elas são reduzidas. No chamado “inverno amazônico”, chove praticamente dia sim e dia também. Já no verão, entre agosto e setembro, as chuvas ficam menos frequentes – em alguns meses ficando até abaixo dos 100 mm. Se não houver um bom armazenamento destas precipitações, pode faltar água para o consumo.

As distâncias são amazônicas nesta região, mas nas cheias pode haver “atalhos” que reduzem os trajetos até os centros urbanos. Este mapa mostra as principais rotas utilizadas nos períodos de cheia e seca na região da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Mamirauá e da RDS Amanã, na Amazônia central. 

Nas várzeas, os pulsos de inundação podem ultrapassar os 13 metros de amplitude, entre os períodos de seca e cheia de um mesmo ano. Durante as cheias as águas ficam sob as palafitas (ou até dentro das mesmas) e nas secas os rios se afastam por até mais de meio quilômetro das casas. Nos meses de seca, quando as águas dos rios (e as chuvas) se tornam distantes das residências, a rotina de muitos amazonenses se assemelha com a imagem típica do distante Sertão nordestino: os baldes d’água são carregados dos rios até as casas para usos diversos, mais de uma vez por dia. Já as louças e roupas são lavadas nas margens, no mesmo local onde tomam banho. Abrir uma torneira dentro de uma residência é um privilégio. 

Para levar Água potável e saneamento para todos – meta do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável (ODS) nº 6 da Agenda 2030 –, precisaríamos, em menos de 10 anos, levar soluções para mais de um terço dos domicílios brasileiros, segundo dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). E no Norte do Brasil, o desafio é ainda maior.

Todas estas questões – ambientais, econômicas, sociais, culturais – precisam ser levadas em conta ao buscar soluções para estes problemas. As soluções precisam ser adequadas especificamente a cada região e localidade atendida. E estas adaptações são especialmente necessárias nesta região, em função dos seus pulsos de inundação, longas distâncias, ausência de energia elétrica e das realidades socioeconômicas de suas populações. A Amazônia é gigantesca, assim como seus desafios. Mas para cada desafio, há uma tecnologia.

Onde não há eletricidade, há energia solar. Onde há energia solar, há bombeamento de água até as casas. Onde há água nas casas, podem haver filtros. Não podemos reduzir as distâncias ou mudar os ciclos dos pulsos de inundação, mas podemos adaptar as diversas tecnologias de forma participativa.

Ciência se faz com parceria

Os dados apresentados fazem parte dos estudos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) – organização supervisionada e fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovações (MCTI).

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

GOMES, M. C. R. L. et al. Surrounded by sun and water: development of a water supply system for riverine peoples in Amazonia. Revista Tecnologia e Sociedade, v. 15, n. 35, 6 jan. 2019. (Acesse aqui).

MOURA, E. A. F. Água de beber, água de cozinhar, água de tomar banho: diversidade socioambiental no consumo da água pelos moradores da várzea de Mamirauá, Estado do Amazonas. Cadernos de Saúde Coletiva, v. 15, n. 4, p. 501–516, 2007. 

MOURA, E. A. F. et al. Sociodemografia da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá: 2001- 2011. Tefé, AM: IDSM. (Acesse aqui)

Leonardo Capeleto de Andrade é Engenheiro Ambiental (UPF), doutor em Ciência do Solo (UFRGS) e pesquisador PCI/CNPq no Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá. Atua no Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis, na linha de Tratamento de Água para comunidades ribeirinhas amazônicas. Veja mais na Plataforma Lattes e no ResearchGate.

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