O lado oculto do acesso à água na região das águas

O lado oculto do acesso à água na região das águas

12 de dezembro de 2023 | Tempo de leitura: 4 minutos

Por Milena Barbosa

 

A região amazônica é normalmente representada e valorizada em seu aspecto ambiental, ocultando as dinâmicas sociais existentes e as dificuldades enfrentadas pelas populações que habitam esse território. Assim, os problemas históricos de acesso à água potável na região com maior disponibilidade de água doce do mundo estão velados sob a tese de um preservacionismo ambiental da Amazônia.

Os rios exercem um papel fundamental na dinâmica de vida das populações amazônicas, nos seus mais diversos usos, como abastecimento de água, além de ser a principal via de acesso e mobilidade na região. Foto: Miguel Monteiro

As populações que habitam o interior do Amazonas, no Brasil, estão situadas em uma região com grandes lagos e rios, e durante séculos utilizaram tradicionalmente as águas desses rios para diversas atividades como cozinhar e lavar roupa e louça, para higiene pessoal – além de ser o principal meio de transporte da região. E durante muito tempo foram as principais fontes de acesso à água para consumo humano, onde a população tinha de coletar e carregar litros de água até suas casas.

Estes resultados foram encontrados no nosso estudo que abordou o contexto histórico do saneamento de água na região central da calha do rio Solimões, denominado de Médio Solimões (AM), descrevendo os diferentes usos e formas de abastecimento hídrico utilizados ao longo do desenvolvimento socioeconômico da região.

Desde o século XIX cientistas viajantes que realizaram excursões na região descrevem sobre a dinâmica da população com os rios, onde o naturalista inglês Henry Walter Bates relata que ele próprio realizava as atividades domésticas com a água do rio: “erguia-me com o sol, quando as ruas tapizadas de relva estavam úmidas de orvalho e descia ao rio para banhar-me”.

Décadas se passaram para que a região pudesse usufruir de um sistema de abastecimento domiciliar adequado quando, a partir de 2000, os lagos e rios foram substituídos pelas águas subterrâneas como fonte de abastecimento, em virtude da contaminação dos mananciais superficiais pelo despejo de esgoto sanitário.  O esgoto é gerado a partir do uso da água em residências, comércio e serviços.

Em Tefé, a maior cidade e mais estruturada do Médio Solimões, apenas 31% do esgoto é enviado para um destino adequado, como uma fossa séptica.

Nesse sentido, o paradoxo da água na Amazônia está relacionado a uma questão de qualidade hídrica, uma vez que a precária captação e tratamento de esgotos na região compromete a qualidade dos recursos hídricos tornando essas águas impróprias para consumo humano. Para que uma água seja boa para ser consumida, ela deve atender a um padrão de potabilidade em que sua cor, sabor, cheiro e qualidade microbiológica, entre outras características, não apresentem alterações e nem risco à saúde humana.

Com problemas no abastecimento público de água, a população dessa região da Amazônia utiliza uma grande quantidade de poços privados para este suprimento, perfurados sem registro de uso e autorização – o que é obrigatório por lei. Esta problemática tem sido estudada pelo grupo de pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá, que avaliou a qualidade da água de poços de três municípios.

Localização de comunidades ribeirinhas no município de Tefé, Alvarães, Uarini, estado do Amazonas, Brasil. Imagem: Milena Barbosa.

Os municípios selecionados foram os centros urbanos de Alvarães, Tefé e Uarini, situados próximos às Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã e que fornecem suporte de infraestrutura e serviços públicos às comunidades ribeirinhas de toda a região. Assim, foram analisadas amostras de água de oito poços de abastecimento hídrico em cada cidade, onde em todos os poços analisados houve a contaminação por coliformes totais, acima do limite de potabilidade estabelecido pelo Ministério da Saúde.

Placas em diferentes diluições (A e B) com grande quantidade de colônias de Coliformes Totais e Escherichia coli. A técnica de análise da qualidade da água é feita pela contagem direta das unidades formadoras de colônias de coliformes utilizando o método de filtração de membrana por nitrocelulose. Fotos: Milena Barbosa.

A saída para a problemática da água potável na Amazônia está na implementação de políticas públicas adequadas que atendam às necessidades mais básicas da população – como saneamento, saúde e educação – planejadas de acordo com a especificidade de cada região, desmistificando uma imagem de Amazônia ambiental que necessita ser protegida por uma “floresta urbana” que precisa ser desenvolvida e planejada

Ciência se faz com parceria

Os dados apresentados fazem parte dos estudos desenvolvidos pelo Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS), do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM) – organização supervisionada e fomentada pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Pinheiro, K. “Um olhar mais social”: quatro problemas para refletir sobre consumo da água na Amazônia. 2023. Portal Amazônia. (acesse aqui). 

Gomes, M. C. R. L. et al. 2022. Conditions of use and levels of household access to water in rural communities in the Amazon. Ambiente & Sociedade, 25.  (acesse aqui).

Moura, E. A. F. Água de beber, água de cozinhar, água de tomar banho: diversidade socioambiental no consumo da água pelos moradores da várzea de Mamirauá, Estado do Amazonas. 2007. Cadernos de Saúde Coletiva, 15(4), 501-516. (acesse aqui).

Sobre a autora

Milena Barbosa é natural de Tefé (AM) e acadêmica de História pela Universidade do Estado do Amazonas. Desde 2018 é colaboradora do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá pelo Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica/CNPq, onde faz parte do Grupo de Pesquisa em Inovação, Desenvolvimento e Adaptação de Tecnologias Sustentáveis (GPIDATS). Veja mais na Plataforma Lattes.