Diversidade de aves em um cenário de monocultura de palma-de-dendê

22 de abril de 2021 | Tempo de leitura: 4 minutos

Por Sara Miranda Almeida

Com mais de 1.300 espécies, a Amazônia é a região com a maior riqueza de aves do mundo! As aves são importantes organismos para os ecossistemas que habitam, atuando na dispersão de sementes, na polinização, no fluxo de nutrientes e no controle de populações de insetos e de roedores (veja na figura abaixo). Assim, elas fornecem importantes serviços ecossistêmicos, que consistem em benefícios que a humanidade obtém dos ambientes naturais, muitos dos quais são de importância fundamental para o bem-estar, saúde, subsistência e sobrevivência (veja mais sobre serviços ecossistêmicos neste artigo).

          Tradicionalmente, cientistas medem a biodiversidade através de índices ecológicos, sendo o levantamento do número de espécies em um dado local (riqueza de espécies) um dos primeiros passos para elaboração de estudos. Mais recentemente, a diversidade funcional passou a ser bastante utilizada para investigar as respostas da biodiversidade frente às mudanças ambientais. Essa medida de diversidade é calculada a partir de determinadas características dos organismos que podem variar de acordo com o ambiente onde vivem. Essas características, também chamadas de traços ou atributos funcionais (do inglês, functional traits), podem ser morfológicas, fisiológicas, comportamentais, entre outras.

Contribuição das aves nos serviços ecossistêmicos. A) Frugivoria e dispersão de sementes pelo surucuá-pavão (Pharomachrus pavoninus), B) Polinização por beija-flores (na foto o rabo-branco-rubro, Phaethornis ruber), C) Remoção de carniças por urubus (urubu-de-cabeça-amarela, Cathartes burrovianus ), D) Controle das populações de insetos pelo pica-pau-de-topete-vermelho (Campephilus melanoleucos) e E) pela ariramba-da-mata (Galbula cyanicollis); F) Controle de populações de pequenos mamíferos pela murucututu (Pulsatrix perspicillata). Fotos: Sara Miranda Almeida.

          Para as aves, o tipo de recurso consumido na dieta de cada espécie (por exemplo, sementes, frutos, folhas, invertebrados, vertebrados), tamanho corporal (que reflete a quantidade de recurso necessário para o organismo), medidas do bico (relacionadas ao tipo de alimento consumido), assim como o estrato de forrageio (local de busca de alimento, como o chão ou o dossel de uma floresta), são exemplos de características frequentemente utilizadas para medir a diversidade funcional. Ao descrever espécies de aves através de seus traços funcionais, podemos classificar e comparar determinados grupos de espécies pela sua “diversidade de funções” em dado local ou região. Para isso, informações ecológicas como as mencionadas acima são combinadas com os dados de ocorrência das espécies para calcular a diversidade funcional. Dessa maneira, pode-se avaliar, por exemplo, o impacto de mudanças ambientais em diferentes comunidades de aves (entenda o conceito de comunidades em ecologia).

          Em conjunto com um grupo de pesquisadores(as) do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Pará – UFPA, avaliei o impacto da plantação de dendezeiro (Elaeis guineensis) sobre a diversidade funcional de aves na região de Tailândia, nordeste do estado do Pará. O óleo de dendê tem sido muito utilizado na indústria de alimentos e cosméticos, e também na produção de biodiesel. Verificamos quais são as características ecológicas que tornam uma ave mais ou menos propensa a desaparecer ou ocupar uma área se a floresta for substituída por uma monocultura de dendê. 

Área de plantação de palma-de-dendê e uma área de floresta no município de Tailândia, estado do Pará. Fotos: LABECO-UFPA e Fernanda de Carvalho Barros, respectivamente.

          Encontramos que espécies que se alimentam de frutas ou néctar estavam entre as mais propensas a estarem ausentes nas áreas de plantio. Por outro lado, as aves que se alimentam de sementes (de gramíneas, por exemplo) e que buscam alimento no solo foram beneficiadas pela monocultura. O número de espécies de aves foi três vezes menor nas áreas de monocultura quando comparadas às áreas florestais do entorno, e a diversidade funcional foi duas vezes menor. Nossa principal conclusão com esta pesquisa foi que a monocultura de dendê reduziu a diversidade de aves, tanto em número de espécies, como em funções no ecossistema. Além disso, ressaltamos a importância das áreas de floresta na região de Tailândia para a conservação de aves silvestres e para manutenção dos serviços ecossistêmicos.

 

Ciência se faz com parceria

        Os resultados apresentados neste texto são parte da pesquisa realizada por Sara Miranda Almeida durante o seu curso de doutorado no Programa de Pós-Graduação em Zoologia da Universidade Federal do Pará sob orientação de Marcos Pérsio Santos. Esta pesquisa contou com o apoio financeiro do governo federal através de uma bolsa de doutorado CAPES.

Quer saber mais? Acesse os materiais abaixo!

Laboratório de Biologia da Conservação e Macroecologia da UFPA (InstagramFacebookTwitter

Almeida, S. M.,  Silva, L. C., Cardoso, M. R., Cerqueira, P. V., Juen, L., Santos, M. P. D. (2016). The effects of oil palm plantations on the functional diversity of Amazonian birds. Journal of Tropical Ecology, 32: 510-525. (acesse aqui)

De Groot, R., Brander, L., Van Der Ploeg, S.,  et al. (2012). Global estimates of the value of ecosystems and their services in monetary units. Ecosystem services, 1(1): 50-61. (acesse aqui)

Sara Miranda Almeida é bióloga e mestre em Ecologia e Conservação (UNEMAT) e doutora em Zoologia (UFPA). Veja mais na Plataforma Lattes e ResearchGate

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